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terça-feira, 4 de novembro de 2014

O Pacto Suicida

O Pacto Suicida




                Pammela sentou-se de pernas cruzadas, postada com as costas voltadas para a janela, de onde raros raios da luz do sol penetravam através das brechas na madeira. Tinha os cabelos loiros amarrados na nuca, entretanto conseguira formar uma adorável franja diante da fronte. Uma almofada sob os joelhos, pra prevenir a dormência, ela pensou, recordando-se do insuportável formigamento que decorria inevitavelmente daquela posição, tão confortável, mas estragada pelos detalhes. Dick já estava no seu lugar devido havia já alguns minutos, com o rosto assentado diretamente para a janela de onde os raios de sol escapavam pelas frestas e iam parar no seu rosto belo e jovial. Era quase como se a luz, ainda que escassa, presenteasse com uma claridade extra seus já belos olhos azuis, amalgamando-lhes um tom dourado, quase como quando o sol bate no mar, nas tardes do Caribe. Mas os olhos dele estavam, agora, fechados, quase em meditação (ou talvez fosse exatamente isso o que fazia, tão eretamente postado e tão perfeitamente imóvel que estava).
                A irmã bateu com as palmas das mãos bem à frente dos olhos de Dick, como se apanhasse dum só golpe uma desenvolta mosca nos ares. Foi o suficiente para que ele despertasse daquele transe vazio, presenteando o mundo com a visão da cor dos seus grandes olhos.
                - Trouxe? – ele perguntou, ciente de que a irmã sabia do que se tratava.
                - Sim – Pammela respondeu, dispondo entre eles, sobre um chão, uma toalha branca que se enrolava em volta dum objeto qualquer.
                Ela descobriu o que quer que a toalha envolvia, deixando à mostra um pequeno revólver calibre .22, e a toalha, por sua vez, passou da qualidade de manto que entrega o recém-nascido para a de bandeja que, estendida, apresenta o alimento, perfeitamente alinhada com o piso de madeira.
                - Que beleza – Dick disse, encantado. – Onde conseguiu?
                - O que é que uma mulher como eu – não quero significar que tenho atributos ou qualidades a mais, porque bem sei que não passo de material de qualidade mediana, bem ao gosto do vulgo geral – não consegue numa madrugada de San Francisco?
                - Vamos lá, para com isso. Você sabe que é bela. Desde pequeno, quando meu corpo começou a responder pelos hormônios, naquela fase em que os meninos arranjam desculpas diversas para ficar sozinhos e sem perturbação – quase sempre na companhia duma revista ou mesmo duma imagem que se conservou das ruas – e quero esclarecer de antemão que jamais a desejei, porque, meu deus, isso seria nada menos que doentio - – pensava que nunca gostaria de nenhuma das garotas lá de fora, porque nenhuma delas jamais a superaria em beleza; concluía, então, que terminaria como um andrógino, cantando Boy George pelos cantos da casa e sonhando com o dia que me casaria com o James Dean. Foi então que conheci Ann-Margaret.
                Dick jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada estrondosa.
                - Quer significar que Ann-Margaret é mais bela que eu? – Pammela questionou-o, amuada, com os braços cruzados diante do peito, num gesto infantil de desgosto, ainda que irônico.
                - Não. Mas pelo menos me ofereceu uma estrada alternativa àquela que dizia respeito ao Culture Club. – Dick voltou a gargalhar.
                - Pois bem – Pammela asseverou, como se estivesse prestes a iniciar uma narrativa.
                - Vai mentir muito desta vez ou vai mentir bem pouco? – Dick interpelou, com uma das sobrancelhas armada em arco.
                - Ah, não conto mais – Pammela interrompeu-se. Virou a cara pra janela numa repreenda; mas abruptamente se deu conta de que estava tratando com Dick, e Dick nunca implorava por nada.
                - Tudo bem. Vamos logo com isso? – Dick disse, sentindo na mão esquerda (pois que era canhoto) o peso da pequena arma escura.
                Passou os dedos através das formas do artefato, como se o acariciasse com veneração. Seus grandes olhos azuis, agora meio dourados por intermédio do sol, encaravam a calibre .22 a partir de todos os ângulos, tornando-a, aproximando-a e afastando-a, observando-a contra a luz e com pesar da luz. Por último, assentou-a numa só das mãos (a esquerda), repousou o dedo indicador contra o gatilho, encostou o cano numa das têmporas e “PAH”, atirou. Dick pôs a língua pra fora e mostrou o branco dos olhos, virando-os, quase como um morto de verdade, com a coluna inclinada para o chão onde sua cabeça repousava. Ergueu-se de pronto.
                - Só não diga que se esqueceu da munição – ele vociferou, exibindo um sorriso de corados lábios finos e belos dentes brancos.
                - Ah, então toma sua irmãzinha por tola? – Pammela inquiriu-o, retirando do bolso da calça uma mão cheia de balas, como uma menina feliz por ter as mãos repletas de doces no Halloween. Repousou os pequenos projéteis de ponta dourada, que totalizavam dez, por sobre a toalha branca. Demonstrava excitação através dos movimentos do corpo.
                Dick tomou uma amostra nas mãos e perscrutou-a, como havia feito com a arma, instantes antes. Fechou um dos olhos pra conseguir focalizar com mais precisão.
                - O que há com suas pontas? – perguntou.
                - O George do açougue disse-me que são mais eficazes. Disse-me também que chamam esse tipo de dundum. O ferimento é maior, graças ao diâmetro do projétil.
                - Ah, então foi com o velho George que conseguiu a arma... – Dick concluiu.
                - Oops, prometi que não diria mais uma palavra – Pammela disse, fazendo um movimento de zíper com os dedos polegar e indicador por sobre os lábios cerrados.
                - Vamos lá, agora quero ouvir a história – Dick afirmou, novamente exibindo a arcada de dentes perfeitos.
                Pammela fingiu relutância, mas seus olhos denunciavam o fato de que estava louca pra contar.
                - Tá bem – disse. – Disse-o que havia entrado um guaxinim no meu apartamento.
                - E ele deu-te uma calibre .22 com balas de ponta oca pra que você matasse o bicho? – Dick questionou-a, irônico.
                - Você sabe, o velho tá caducando – Pammela justificou.
                - Ah, que será do pobre George Tyson quando descobrir que não mais terá consigo a visão da beleza dourada da bela Pammela Benson, que vai às compras de bife toda santa manhã?! Não quer ir lá convidá-lo pro nosso suicidiozinho privado? É certo que consentirá. – Dick gargalhou por uma terceira vez.
                - O velho já não consegue diferenciar picanha de retalhos. Semana passada, a velha Ruth foi comprar carne pra recepção do filho que regressava do Vietnã depois de três anos e o George vendeu-a restos de bofe pra gato – foi o turno de Pammela de gargalhar.
                - Faremos isto agora? – o rosto dela mudou num repente. – O sol está muito quente; demorará algum tempo ainda, até que o Richard chegue e descubra nossos corpos, que já estarão despendendo líquidos odoríferos, se é que me entende. O sol catalisará todo o processo natural.
                - Tem razão – disse Dick, pensativo. – Mas não será mais problema nosso, mesmo.
                - É... Ainda que eu ache meio indigno. De qualquer forma, é como você disse. Nem mais uma palavra. Muna.
                Dick recolheu seis dos pequenos projéteis e encaixou-os nos seus devidos compartimentos, introduzindo-os com uma lentidão quase cerimonial. Todos os seis.
                - Dessa forma, não tem como errar – disse, por fim, satisfeito.
                - Quem primeiro? – Pammela fez a pergunta dourada daquela tarde.
                - Eu, claro – Dick retorquiu. – Eu sou o mais velho. – E sorriu amigavelmente. – Ah, e se você desistir, nem me importarei; como me importar, se já não haverá eu?
                Pammela esmurrou sem força o braço do irmão.
                - Quer sugerir que vou dar pra trás? Devo lembrar-lhe de que a ideia foi inicialmente minha. Você quem se intrometeu, de enxerido.
                - Verdade. Contra fatos não há argumentos. – Dick disse, erguendo as mãos abertas, em sinal de redenção.
                - Vamos lá – ele prosseguiu. Aproximou o cano da arma na têmpora esquerda, como fizera de brincadeirinha alguns instantes antes. Mas dessa vez não o fazia com o intuito de brincar. Sentiu as bordas geladas do cano contra seu couro cabeludo, o que lhe provocou uma espécie de arrepio na nuca. Respirou fundo.
                - Três – iniciou a contagem em regressão. – dois...
                - Espera – Pammela vociferou. – Falta a lista.
                - Lista? – Dick estava confuso.
                - Sim, a lista. Quando dei início ao projeto, havia alguns requisitos que deveriam ser atendidos. Fazer uma lista de balanceamento era um deles. E você sabe como eu sou com as regras; principalmente aquelas que eu mesmo estabeleço.
                - Sim, sei bem. Da última vez que transgrediu uma delas foi parar numa casa de saúde mental. Mas, pelo que sei, não há hospícios na escuridão eterna. – Dick demonstrava uma pitada de consternação, ainda que não perdesse seu tom irônico. – Uma lista do quê, exatamente?
                - De pesos e contrapesos – Pammela respondeu-o. – Funciona assim: eu digo uma potencial coisa pela qual se vale a pena viver e você me retruca com a versão corrompida dessa coisa. Se não houver versão corrompida, você me arranja algo que a anule irremediavelmente. No fim, a decisão ainda cabe a nós. A finalidade é confirmarmos se realmente fazemos a escolha ideal.
                - Hm, parece divertido – disse Dick, em concordância. – Mas creio que já haja tomado minha derradeira decisão. – Depois de alguns segundos em silêncio, prosseguiu:
                - Bem, não perco nada. Comecemos.
                - Ok, deixe-me ver – Pammela aprumou-se, como uma criança que se excita com o início dum jogo novo, os olhos jogados na diagonal, como quando se tenta acessar a imaginação.
                - Sexo é algo bom com que se começar – ela disse. – O que me diz?
                - Concordo – Dick respondeu. – Mas, qual a sua finalidade, eu a pergunto? Contraímos e descontraímos centenas de músculos, jogamos na lixeira vidas que jamais lograrão em realidade, somos acometidos de intensa sensação de prazer por míseros segundos. Depois, o quê? Depois um dos dois se dirige à cozinha para fritar ovos ou fazer torradas, e a vida barulhenta de fora do apartamento tem seguimento. É nada mais que uma necessidade animal da qual nenhum dos dois se beneficia verdadeiramente, afinal (num contexto metafísico, é lógico). Num contexto fisiológico, advêm inúmeros benefícios à saúde e blá, blá. A mesma saúde cuja função é a de nos ajudar a encarar o mundo; o mesmo mundo que eu desejo evitar através de uma dessas dunduns do cartucho. Vamos à sua forma corrompida. Calha lembrá-la, e essa imagem mental é suficientemente forte para deixar que reste qualquer dúvida quanto ao seu peso, dos que trazem à tona atividades nada saudáveis, incorporando-as ao sexo. Tem gente que só atinge o orgasmo quando, durante o ato, se lhe batem ou se lhe arrancam um dedo ou uma orelha fora. Esse fato por si só nos leva inexoravelmente à conclusão de que a vida, de forma geral, é um defeito. Ademais, tem ideia de quantos dementes, por culpa destas mesmas atividades, em tese, prazerosas, andam por aí, mundo afora, vendendo pessoas no mercado negro? Seu argumento está anulado.
                Pammela fez cara de quem aceitou a derrota.
                - Bem, e os nossos amigos? – Era a segunda chance de Pam.
                - Nunca entendi, ao certo, o significado de tal palavra. Amigo. Tenho formulado um conceito em mente: são aqueles que precisam de nós... para que se sintam melhores quanto a si mesmos. Quando pesam os fatos determinantes, nenhum deles fica; se ficar, é para que nos veja caindo e, consequentemente, sintam-se, como disse, melhores em relação a si mesmos. Richard, por exemplo. No momento em que nos declararmos quebrados (e é o que aconteceria, caso escolhêssemos a vida), não tardará até que arranje novos amigos com quem conseguir marijuana e cerveja de graça, assim como o faz aqui. Amizades são pequenas conveniências. No momento em que as condições desfavorecem, se desfazem como pólen ao vento.
                Pammela pareceu convencida pelo argumento.
                - E a música?
                - Pura ilusão – ele respondeu de pronto. – O que a música muda? Leva a qualquer lugar? Eu mesmo nunca saí do meu quarto escuro e cheio de rachaduras enquanto ouvia, durante toda minha vida. Às vezes é tocante, sim, e às vezes anima, mas continua não passando de ilusão. São apenas ondas sonoras, e ondas sonoras não mudam qualquer coisa. Nós desligamos os fones de ouvido e o mundo lá fora ainda é escuro, frio e barulhento.
                - E os livros?
                - Desta vez, você quase me pega. Mas, não mais. Durante uma época foram eles que me mantiveram afastados das lâminas e da ponte da cidade; pensava eu que, certo dia, abriria um opúsculo especial e me depararia com a verdade final acerca de todas as coisas; seria, assim, livre e feliz para desfrutar dos banquetes da vida, servidos pelo fauno dos bosques, para dançar e para enamorar-me de alguém sem qualquer peso na consciência. Nunca houve tal livro; nem tem pretensão de haver. Folheei páginas demais e tudo o que me deram foram mais dúvidas. Quanto mais páginas, mais e mais intensas teias de aranha, que vão se contorcendo através da minha mente fraca, induzindo-me à confusão e à incerteza. Auxiliaram-me um pouco, os livros de meditação e misticismo, mas o estado final alcançado pelos gurus é sempre o de perfeito vazio. Existe vazio mais perfeito que a morte? Estamos próximos de experimentar.
                - E mamãe?
                - Não estás a sério, com essa pergunta. Não podes. Mamãe é uma serpente venenosa. Faz-se de senhora boazinha de meia-idade que não vê a hora de pegar seus netinhos no colo, hoje. Mas foi ela quem ocasionou o suicídio do papai. Sua memória não deve estar tão defasada assim. Ele sentou-se no vaso sanitário e engoliu uma dúzia de comprimidos de tarja preta. Não a suportou. Lembra-se? Ela nos assustando, pequenos, com todas aquelas histórias de labaredas do inferno e a volta de deus? Sem bem que esta parte não é culpa dela; é metade dum planeta inteiro contaminado por essa farsa que se alastra através das gerações.
                - E os natais?
                - Como comemorar os natais com comida farta e boa música enquanto crianças são vendidas como porcos, por aí? Enquanto os velhos indefesos sofrem nas mãos de skinheads psicopatas que destroem seus rostos com pés-de-cabra? Melhor: como comemorar um natal, que fala de compaixão e bons sentimentos, com a ciência de que milhões de famílias restaram trucidadas quando das grandes guerras? Com a ciência de que tantos não têm como comer qualquer coisa, nesse exato momento, pobrezinhos...
                - Você está brincando comigo esse tempo todo – Pammela repreendeu-o. – Você não se importa com qualquer dessas coisas. Está reproduzindo o costumeiro discurso superficial dos suicidas vulgares; esse não é o Dick falando.
                - Estou apenas jogando o seu jogo, cara irmã – Dick retrucou, com uma expressão de divertimento estampada no rosto. – Se bem que você tem a razão. Se eu me importasse com qualquer dessas coisas, não estaria no chão do meu apartamento, às três da tarde, com uma arma apontada pra minha própria cabeça. E creio que você não se importe com essas coisas  também, se me acompanha neste “empreendimento”. Então, por que darmos prosseguimento a esse jogo infrutífero?
                - Você é bom argumentador. Talvez eu o estivesse usando pra conseguir convencer-me ainda mais. Mas você foi esperto e começou a jogar essa ladainha de “famílias mortas na guerra”. Antipático até o seu último instante.
                - Eu faço o que posso – Dick disse, passando os dedos através dos cabelos dourados.
                - Praia no domingo de manhã – ela asseverou, continuando o jogo.
                - Hiroshima e Nagasaki jamais voltaram a ver a praia, que peninha.
                - Concerto da sua banda favorita.
                - As câmaras de gás nazistas. O câncer que pode vir a acometer qualquer um.
                - As crianças. As crianças são uma coisa boa. Quero ouvir de perto seus argumentos.
                - Um bando de pequenos homens e mulheres barulhentos, cheios de necessidades e especialidades. Passam a infância sonhando, crescem e se tornam adultos fúteis, como a gente do mundo lá fora, ou adultos tristes, como você e eu. E isso dá no quê? Nada, como todo o resto das coisas.
                - E se uma delas é seu filho?
                - Aí eu entrego tudo de mim; meu tempo, minha dedicação, meu amor. No fim, ele ou ela abre a porta da frente da minha casa imaginária e vai-se embora pro mundo barulhento, enquanto eu, drenado, morro num quarto vazio. A única coisa justa é que ele também morre no final, tão sozinho quanto eu; ninguém ganha nada.
                - Você falou de amor, não falou? O que me diz dele?
                - Digo que é sinônimo de dor; quando se ama se está sempre separado de qualquer coisa; sentimo-nos como se fôssemos a metade de alguma coisa. Mas não existe coisa alguma para nos completar – somente ilusões, assim como quando somos acometidos da paixão. Creio que a inteireza, o preenchimento real, resida na morte, a única coisa da qual temos conhecimento que exista com totalidade. Não noutro lugar além daí.
                - Acho que acabo de ser convencida – Pammela disse, enfadada.
                - Então vamos dar prosseguimento ao itinerário.
                Foi quando a janela se abriu e deixou entrar o sol. Era Richard, que subia alternativamente pela escada de incêndio. Lá fora, fazia uma agradável tarde de setembro. As crianças pulavam corda e brincavam de dono-da-rua. Pammela e o irmão se ergueram e se dirigiram à janela sem dizer palavra, enquanto Richard ia desengonçadamente atrás duma cerveja na geladeira. Uma brisa lhes estapeou o rosto. Eram quase quatro da tarde e o mundo já não estava tão barulhento; umas nuvens róseas rodeavam o sol já distante, a deslizar no horizonte de San Francisco. Num ímpeto, pros dois, pareceu tocar música no céu azul; o mundo já não era tão insuportável quanto aparentava no joguinho de palavras deles. Era quase harmonioso.
                - O que acha de deixarmos nosso “empreendimento” pra outro dia? – Pammela sugeriu, sem desviar os olhos da rua pintada de ouro. – Sou a idealizadora, minha palavra deve valer alguma coisa.
                - Deixemos. Mas aviso que vou conseguir uns argumentos insubjugáveis daqui pra próxima vez.
                - Desafio aceito – ela respondeu.
                - Desafio? – o Richard, que voltava da cozinha com uma lata de cerveja na mão, perguntou. – Que desafio?
                Nenhum dos dois disse nada; o que estava para lá da janela respondeu por eles.      

domingo, 12 de janeiro de 2014

O Vagabundo na Chuva


                Seis letras, começa com v, prevenção de doenças virais e bacterianas, o rapaz falava a si mesmo, como se a descoberta daquele enigma fosse conduzi-lo a qualquer lugar, longe daquela estação cinzenta de trem. O relógio beira às dez horas, mas, para quem não tem para onde voltar, os ponteiros do relógio são nada mais que linhas dançantes, sempre contínuas em seus inacabáveis movimentos. O lugar tinha tanto cheiro da sopa que o vigia preparava para si, alguns metros afastado, quanto da lama que as botas, impermeáveis ou não, dos transeuntes traziam em suas solas. O converseiro começava a diminuir, mas o tamborilar da chuva sobre os telhados dos edifícios vizinhos e sobre a cobertura do próprio prédio da estação ainda faziam questão de atuar sonoramente.
                Estava frio – tanto que o rapaz vestia duas jaquetas, uma por sobre a outra, para que o frio não o fizesse vítima. Antigamente, bem que ele poderia surpreender algum senhor que ia passando para pedi-lo um mísero cigarro, e mais um para o próximo senhor, e mais um para o próximo; o cigarro o mantinha quente. Mas, o fato era que o rapaz havia largado o vício, quando começaram a imprimir e publicar aquelas revistas de teor sério, falando tão mal da tal da nicotina, como se fosse uma espécie de besta do apocalipse, e talvez fosse. Agora, como acontecia com as aranhas, sempre que ouvia a palavra, ou sempre que via um senhor ou senhora a sacar o objetozinho branco e esguio de suas carteiras, sentia algo como uma coceira – coceira de quem está inquieto. Minha senhora, a senhora tem netos? A senhora realmente quer vê-los chorando sobre um túmulo: o seu? Então é bom que deixe que a chuva apague a pequena chama do fumo, antes que a nicotina transforme suas entranhas em cinzas, o rapaz dizia para uma senhorinha dondoca que estava bem próxima, mas dentro de sua própria cabeça.
                O palavras cruzadas do periódico da tarde ainda espera por resolução. Decidiu pular aquela palavra de seis letras. Cinco letras, o que se carrega por penitência, contra a vontade de quem carrega. O rapaz se pôs a pensar mais uma vez, enquanto gotículas de água, que saltitavam de um guarda-chuva, tão negro quanto aquela noite era, de uma moça que passava ao largo, o acometiam. A mocinha o sacudia para obtê-lo enxuto. Ela tinha na boca um tom escuro de batom, cabelos cortados à francesa, pele branca como a neve mais pálida. Uma jaquetinha de couro escuro cobria parte de seu torso, pequenino como o de uma fêmea deve ser. Mas ela não o deu atenção. Passou ao larguíssimo, como se sentisse medo dele. Da boina maltratada, das roupas manchadas e desbotadas, das olheiras tão visíveis – visíveis mesmo sob a tosca iluminação daquela parcela da estação -, ou mesmo medo da sua atitude vagabunda, de sentar-se ali, como se nada tivesse que fazer, numa terça-feira, quando tantos outros ansiavam pelo retorno às suas respectivas casas, para desfrutar de suas tão merecidas (poucas) horas de sono; descanso de gente que trabalha. Fosse o que fosse, ela já ia ao longe, talvez para dormir e sonhar com um rapaz que tivesse com o que se vestir com dignidade.
                Fardo, ele arriscou, o que mais se carrega como penitência, que não um fardo? Acurado. O a da palavra fardo preenchia o espaço da segunda letra da palavra que pulara. Agora o rapaz tinha um _aci_a. Ainda não tinha sequer pista do que poderia ser. Ele fechou o jornal e avançou com os pés por sobre a pequena amurada, que servia para que as crianças não se precipitassem contra a linha de trem. Se o sono viesse, se o sono viesse... O rapaz provavelmente sonharia com as canções; especialmente aquelas que tinham o dom de fazê-lo esperar – e este não era um esperar ruim. Esperar, para que os descasos e os acasos pudessem ser conduzidos, do mais absurdo caos, à ordem; esperar por um trem que pudesse levá-lo, não para o lugar de onde viera, mas para qualquer outro lugar em que não houvesse algumas lembranças. Havia as canções que cobriam seus olhos com um véu de fantasia, também; que fazia olhar para todas aquelas pessoas, descendo avenidas e comprando automóveis, cantando jingle bells e tirando fotos de famílias, de outra maneira. Ou eram eles cegos, ou viam demais. Fossem como fosse, eram os acordes, os solinhos enfeitados de jazz, os suaves sons que os dedos faziam por sobre as teclas limpinhas de um piano, que inundavam seus sonhos mais profundos; e era por essas lembranças, que tinham mais de naturais e sadias que de febris, que ele acreditava ser dotado de alma. Mas sua alma tinha pouca serventia naquele mundo, naquela estação de trem quase deserta, sob aquelas roupas tão maltratadas.
                A estação está para ser fechada, disse um dos funcionários do prédio principal. O senhor espera por alguém? Dormirá por aqui mesmo? Espero por alguém, o rapaz respondeu. Se tivesse chance – e coragem – de explicar, engendraria toda a história de sua espera por si mesmo: um outro rapaz que ele acreditava existir lá no fundo, que não fosse tão preguiçoso e que não estivesse tão contente com tão pouco. É por mim que espero, é por mim.               A chuva não deu trégua; fazia que com o mundo parecesse pequeno, apertado, com todo mundo tentando evitá-la, para não apanhar resfriados, para não molhar seus pertences, suas roupas, seus sapatos, seus cabelos, suas caras pintadas... Eu? Eu não tenho nada disso, o rapaz pensou de pronto, e quis ir lá fora, na chuva, para ter a certeza de que o mundo continuava do mesmo tamanho.
                  Ele nem se deu o trabalho de se despir de nada, o sol da manhã cumpriria seu papel de secá-lo. Saiu e sentiu a chuva a molhá-lo por completo. Um ou outro que passavam pensavam estar vendo um louco, um bêbado, um desconsolado... mas ele era nada mais que um rapaz contente; contente, mesmo que não tivesse um tostão, ou um lugar para onde regressar. Mas o contentamento do rapaz se dava pelo simples fato de que ele estava ali, e estava chovendo, quanta pouca vida! E não passaria pela mais espertas das cabeças que ele era nada mais que um rapaz contente por estar chovendo. Não havia mais pessoas contentes por quase nada pelo mundo, por isso, do estranhamento.
                E, de olhos fechados, enquanto a chuva fazia poças por todos os lugares, e alimentava as pequenas plantas, e matava de frio os pobres mendigos que não haviam conseguido abrigo, o rapaz lembrava-se da imagem da boca delicada da mãe se movendo, para falá-lo com simplicidade, palavras que ele colocaria nas músicas, assim que conseguisse comprar um violão; vírgula por vírgula, parágrafo por parágrafo. Ora, o rapaz, corria agora; não uma carreira apressada, tensa, ansiosa: mas uma nada mais que apenas leve. Ele lembrava-se de quando pensara, numa juventude mais antiga, que poderia ter tantos amigos que perderia as contas, se as tentasse empreender somente com a ajuda dos dedos; ele queria viajar, ter malotes do dinheiro, fazer os passeios maravilhosos e descansar a beber do mais precioso vinho, na companhia da mais delicada das mulheres. Um cão, tão contente quanto o rapaz, agora corria; havia ele também se convidado à brincadeira. E, que engraçado, aquele cão era o único amigo que tinha. E estavam os dois, contentes, sob a chuva. Ele podia contá-lo no dedo, então as coisas eram deveras mais simples. Não havia sequer moedas nos bolsos do rapaz. Ele tinha nada mais nada.
                A vida havia morrido lá fora, porque a chuva a havia assassinado. E o rapaz corria, corria, com o cão a persegui-lo – corria rumo a qualquer que fosse o lugar: o derradeiro e inevitável destino de todos aqueles que tem olhos de ver e pernas de caminhar.      

sábado, 30 de março de 2013

(Erya) Victor


Uma antiga balada enchia a noite de Erya.
               O bardo Dale cantava como nenhum outro homem da cidade, quiçá de todo reino. Era um homem de trinta anos, tinha cabelos longos e barba bem aparada, olhos cinzentos e inteligentes, e usava roupas esfarrapadas de viajante. Tocava agora a triste Lágrimas de Nael, dedilhando firme e habilmente as cordas da magnífica harpa com cordas douradas. “Foi feita pelo próprio Ralien, esta maravilha”, Dale os garantira, no início da apresentação. A canção era suave, e dessa maneira escapava por seus lábios. Duas das filhas de Lorde Grantt fungavam e secavam os olhos com lenços, pela triste composição:

No dia em que Loriel partiu
em seu magnífico garrano,
a primeira lágrima caiu
dos olhos de Nael.
dos olhos de Nael.

O sol não mais brilhou,
nem a chuva molhou,
nem as canções mais chegaram
ao coração de Nael.
ao coração de Nael. 

E um dia, se ele voltar, 
Ela não mais estará lá,
Porque se foi, ela, também
Para lá do encontro de Loriel.
Para lá do encontro de Loriel.

               Quando a última corda deixou de vibrar, Dale ganhou aplausos de todos que rodeavam a fogueira.
               - A alvorada logo chegará. As meninas logo deverão estar em seus aposentos – o Primeiro Protetor Victor recordou-os. - As ordens de Lorde Grant são para que estejamos no castelo antes do alvorecer.
               - Temo que assim seja – disse Dale. - Conheci Lorde Grant da última vez que estive em Erya. Se bem que não passava de um simples rapaz, recém-admitido na cavalaria, na época, pelo que se dizia. Mas isso não o impediu de causar-me o trauma que me casou. Lorde Huster, Senhor das Montanhas, contratou-me para que tocasse para os cavaleiros que partiriam para a batalha na manhã seguinte, na Guerra da Praia de Alla. Ferrick Grant, um cavaleiro aleatório e sem pouca notoriedade, quando soube que seria eu o bardo da noite, sem que nenhum dos outros que passavam visse, desembainhou a espada silenciosamente, apertou-me contra uma parede escura por trás de uma porta próxima à entrada do salão onde aconteceriam as despedidas, e sussurrou-me, ferozmente: “Quero músicas com morte. Nada de princesinhas ou príncipes encantados. Quero músicas com morte, sangue e entranhas.” – Dale imitou-o, com uma voz rouca e zombeteira. - E eu, com medo de ter o pescoço cortado, tudo o que pude fazer foi tocar cinqüenta canções sobre a Guerra dos Corvos. - As gargalhadas foram histéricas e quase não cessaram. Até duas das filhas de Lorde Grant divertiram-se com a estória. – Portanto, é melhor que se vão. Não creio que o tempo tenha deixado Lorde Grant mais simpático. – As gargalhadas voltaram a ressoar, enquanto os cavaleiros da escolta, as meninas e o Primeiro Protetor levantavam-se e cumprimentavam os viajantes, que se instalavam no acampamento.
               Dale levantou-se do banco pequeno de madeira sem encosto, no qual havia se sentado toda a noite, escolhido por ele mesmo, pois, segundo o próprio, o permitia completa mobilidade dos dedos pelas cordas da harpa, envolveu o instrumento com uma grande bolsa de couro e dirigiu-se a Victor e às filhas de Lorde Grant. O resto dos homens e mulheres comuns regressava às suas tendas, erguidas ao pé da muralha, depois de, um por um, haverem feito suas reverencias.
               - Não sabem da felicidade que sinto por aprazer tão belas moças com minhas simples canções – Dale disse galantemente, ao aproximar-se delas. Mariel corou e Alianne sorriu envergonhadamente; Rhaela continuou inexpressiva, como sempre. – Pena que um bardo leva uma vida tão árdua quanto à de um viajante. E temo que haja chegado a hora de partir.
               - Por que não fica um pouco mais? – objetivou Alianne, com um sorriso triste. – Se falarmos com o pai, é certo que encontrará um quarto grande e arejado para o senhor, no castelo. – A moça era de uma beleza inigualável. Tinha longos cabelos loiros e um belo par de olhos azuis. – O pai não diria não a mim.
               - Ah, menina... menina... Não sou nenhum senhor. E já vivi o bastante para saber que um bardo não tem lugar num castelo. Não em Erya. E não nas propriedades de Lorde Grant.
               - Mas você poderá ter! – interveio a pequena Mariel. – Contei ontem nove aniversários. O pai disse-me que poderia escolher o que quisesse de toda Erya, e ele me presentearia. Não escolhi nada... ainda. Poderia pedir que se tornasse o bardo do castelo... e pediria também uma grande mansão, onde o senhor viveria. Uma grande mansão no topo do monte Pardal. Seria azul – os pequenos olhos azuis cintilaram de animação. – Ou da cor que o senhor quisesse. Venha, venha conosco. – Mariel segurou a mão do bardo, tencionando conduzi-lo à porta levadiça, que estava erguida a cem metros de onde estavam. Dale, sem soltar a pequena mão da menina, ajoelhou-se e olhou-a nos olhos, piedosa e graciosamente. O fogo de um archote que brilhava em sua face destacava a profundidade dos olhos cinzentos.
               - Temo que um bardo não possa viver muito mais do que poucos dias em um só lugar. Precisamos de paisagens novas. Precisamos ver tanto a neve quanto o sol escaldante. Encontrar tanto camponeses quanto lordes. Conhecer estórias tristes e felizes. Só assim ganhamos algo chamado inspiração. É dessa maneira que conseguimos escrever nossas canções. Um bardo é como um pássaro. Até mesmo uma mansão seria uma gaiola para mim. Mas, em compensação, quando regressar algum dia, terei um novo e mais rico repertório, e prometo dedicar todas as canções à senhorita.
               - Mas...
               - É hora de irmos, senhoritas – Victor interrompeu-a. – Em menos de duas horas chega o alvor, precisamos regressar imediatamente ao castelo. Vocês três – falou para os cavaleiros. - Podem dar início à escolta. Os acompanharei em um minuto. Ei, vocês! – gritou para dois meninos descalços e meio sujos que jogavam senet, próximos a uma das incontáveis cabanas, que se estendiam até onde se podia ver a muralha da cidade. – Darei uma moeda para ambos, se vigiarem meu cavalo. – Os dois meninos anuíram e levaram o tabuleiro mais para perto do animal.
               - Preciso falar com você, Dale.
               Victor e Dale afastaram-se do acampamento, enquanto as meninas eram erguidas sobre seus pôneis. A madrugada, longe do acampamento, estava escura e silenciosa. O vento uivava dentre as árvores. Quando haviam ido longe o bastante, Victor começou:
               - Ir embora? Pensei que tivesse vindo com os viajantes. Eles, pelo menos, esperarão o amanhecer. Talvez mais um dia, ou dois – Victor estava meio surpreso.
               - É verdade que cheguei com eles. Mas há assuntos importantes chamando por mim em outro lugar. Preciso estar lá tão cedo quanto puder. Uma caravana de viajantes é demasiadamente lenta, e não fariam nada além de atrapalhar. Além de que meu destino encontra-se para lá de Pedra do Rei, e em outra direção.
               - Para onde tencionas em ir, agora?
               - Penso sobre. Talvez para Barbor... Grande Ilha... Ainda não sei ao certo.
               - Toma – Victor tirou duas moedas de um bolso. – O pagamento de Lorde Grant pela apresentação.
               - Maldito velho – disse Dale, carrancudo. – Deixei claro que seria cortesia. Se bem que prata a mais nunca é ruim.
               - Tem o suficiente para voltar a sair de Erya? – Victor perguntou-o, preocupadamente.
               - E algum dia já me faltou moedas? – Dale respondeu, com um sorriso irônico. – São difíceis de achar, mas os bardos sempre dão um jeito – disse, balançando as duas moedas de prata de uma mão para a outra. Victor abraçou-o firmemente.
               - Se encontrar o tio Josser, diga-o que sinto saudades.
               - Encontrar meu pai... Quase tão difícil quanto encontrar moedas.
               Os dois riram, até que Victor cessou, dizendo:
               - As idéias das meninas não eram assim tão absurdas. Podemos conseguir um aposento para que passe a noite. Não mais que isso. É bem verdade que Lorde Grant não nutre muita simpatia por cantores, harpista bardos e afins. Mas, como a princesa Alianne lhe disse, ele faz a vontade das filhas. – Disse Victor, com uma mão no ombro do primo.
               - No dia em que eu aceitar estadia no castelo de Ferrick Grant, pode tirar-me a harpa, porque terei enlouquecido, e não mais saberei se é usada para tocar canções ou para enforcá-lo com as cordas – disse Dale, com um sorriso amargo. – Se bem que, mesmo sano, poderia usar as cordas para esse outro fim. 
               - Bonita amizade, a que nutres por meu senhor – riu Victor. – Ofereceu-se para tocar para suas filhas, se não estou louco.
               - E por que acha que assim o fiz? – perguntou Dale. - Pensa que a história sobre aquela noite, quinze anos atrás, era falsa? Queria que fosse. Tremo quando toco canções bonitas, nessas ocasiões, até hoje – gargalhou Dale. – E nada me aprazeria mais do que a oportunidade de tocar, contra seu ódio, para suas pequenas donzelas... Além de que sabia que o Lorde tem orgulho de ferro... – Levantou as três moedas de prata sobre uma mão em formato de cálice, com um sorriso brincalhão no rosto.
               - Eu bem que deveria ter imaginado – concluiu Victor, com não mais que uma sugestão de sorriso no rosto.
               - É minha hora de ir – anunciou Dale.
               - Devo acompanhar a escolta, também. Cuide-se na estrada, Dale.
               - Cuide-se no castelo de Lorde Grant, primo. – terminou o bardo, virando-se com a bolsa de couro em que estava a harpa presa às costas, caminhando rumo à escuridão do Bosque dos Pardais.
               Victor retornou à luz do acampamento a passos largos. Seu garrano estava atado onde deixara, no suporte de um archote, com dois meninos o vigiando. Jogou uma moeda para um deles, que logo foi atacado pelo outro, derrubando o tabuleiro e acabando com a partida de senet. Desatou o garrano e montou, avançando a trote, rumo à porta levadiça. Em breves minutos, acompanhou a escolta das três meninas, composta por três dos cavaleiros menos importantes do castelo, que já se dirigiam às barracas desmontadas da feira de Harla. Joel Tritão, o esguio e abobalhado cavaleiro de vinte e dois anos que jurava ter um dia visto uma sereia com os próprios olhos, quando viajava por Rekabra, que agora transportava o archote, por ser a noite desprovida de luar; Wett, o recém-armado cavaleiro de dezesseis anos, ainda sem sinal de pelos no rosto; e o inseparável homem da princesa Rhaela, Kitton, um misterioso cavaleiro encapuzado que era como sua sombra.
               - Sobre o quê falava com o bardo? – perguntou Joel Tritão, em meio a um bocejo tedioso.
               - Dale é meu primo. Queria saber para onde irá a seguir. – Victor respondeu-o.
               O enorme castelo de Lorde Grant, chamado Crista do Galo, erguia-se por sobre a amigável colina chamada Ovo, no limite da cidade de Harla. O declive começava onde o pequeno mercado terminava e desatavam a surgir as estalagens, no decorrer das ladeiras. O castelo era sombrio quando visto à noite, principalmente em noites sem lua, como era aquela. Viam-se três torres de pedra negra com topo branco, todas de tamanhos diferentes, que saíam de um imenso edifício inferior, com incontáveis janelas quadradas de vidro amarelo, na parte da frente. À medida que se aproximavam do começo do declive que dava início ao Ovo, o castelo ficava mais colossal. Além das três torres negras desiguais, não viam, dali, os incontáveis portões e as incontáveis salas que se estendiam e se entrelaçavam como teias de aranha, devido à grande muralha que se erguia no topo da colina e se estendia ao redor de todo o edifício.
               - Poderia casar-me com Dale – disse Alianne, suspirando, enquanto deixavam a praça da feira para trás e começavam a sutil subida.
               - Dale é um imbecil – objetivou Wett, visivelmente enciumado.  
               - Com você é que não casarei. – Alianne fechou a cara, pondo seu pônei cinzento, o maior entre os três das irmãs, mais adiante.
               - Estamos em uma escolta, Wett – disse Joel. – Não é hora para romances infantis. Sem ofensas à senhora Alianne.
               - Não me ofendi – respondeu Alianne, que ia à frente, desdenhosamente.
               - Se ele vivesse no castelo... – disse a pequena Mariel, encantada. – Pediria que cantasse para mim todos os dias.
               - Há outros bardos, minha senhora – Victor tentou consolá-la.
               - Mas há um só Dale. É Dale que quero – rebateu a menina, tristemente.
               Rhaela observava as irmãs e o caminho como se pensasse em algo distante. Não dizia nada. Nunca dizia nada. Tinha onze anos e cabelos de um loiro tão pálido, que pareciam brancos. Era magra, tinha grandes olhos azuis e a pele branca como leite. Kitton estava, como sempre, ao seu lado, tão silencioso quanto ela. A menina não falava, e dificilmente sorria. Enquanto Mariel e Alianne choravam e suspiravam com as canções de Dale, Rhaela olhava para outro lado, pedindo com os olhos para que seu Cavaleiro Juramentado a tirasse dali. A menina de onze anos era obrigada a acompanhar as irmãs em todas as atividades de senhora às quais eram submetidas, mesmo não nutrindo nenhuma simpatia por nenhuma delas; ia por ordens do senhor seu pai. Victor percebera havia tempos: ela não gostava de costurar, de cantar, nem mesmo de canções. Gostava de livros. Havia uma pilha deles em seu quarto.
               - Traga-as de volta ao castelo antes da primeira luz do dia – rosnara-lhe Lorde Grant, antes de haverem cruzado as muralhas da cidade – ou corto a sua cabeça e a cabeça do bardo. 
               Por sorte, estavam na muralha exterior da Crista do Galo uma hora antes da alvorada.
               Os viajantes haviam chegado à tarde do dia anterior. Eram, em sua maioria, de Eller, almejando alcançar Pedra do Rei, onde aconteceria, nos dias seguintes, o tradicional Festival de Primavera. Lorde Grant fora avisado da chegada dos viajantes e permitira que montassem o acampamento de quase três mil pessoas à beira da muralha. Victor surpreendeu-se quando soube, quando levava ao Lorde um relatório sobre as atividades semanais das filhas do senhor, através de um dos guardas da muralha que trazia informações sobre os acampados, que o primo Dale estava entre eles.
                - Duzentos e trinta e oito homens, cento e duas mulheres – dissera o guarda, por baixo do elmo. – e dezesseis crianças. Estão em rumo a Pedra do Rei. O Festival de Primavera, dizem eles, meu senhor.
               - Maldito Thedor. Quando pensei que um novo reinado significaria abolição dessas tradições podres – dissera lorde Grant, cuspindo, carrancudo. – O que mais nós temos?
               - Um bardo. Chama-se Dale Witegar – continuara o guarda. - Quer cantar para suas filhas, se lhe aprouver.
               - Witegar? – perguntara lorde Grantt. – Por acaso o homem lhe é família, Victor?
               - Creio que se trate de um de meus primos, meu lorde – respondera-o Victor.
               - E quanto cobra esse bardo? – perguntara o Lorde, virando-se para o guarda, interessado. Quando o assunto era agradar às filhas, não havia muito que Ferrick Grantt não fizesse. E bem ele sabia o quanto as filhas (ao menos duas delas) amavam os cantores.
               - Não cobra nada, meu Lorde. Diz que cantará para elas por pura cortesia.
               - Conversa fiada – garantira Lorde Grantt. – Todo homem quer ouro. Dê-lhe duas moedas de prata. Quando ele deseja cantar?
               - Depois de meia-noite, se lhe aprouver. No acampamento.  
               - Um pouco tarde – disse num tom pensativo. Depois de pensar por um momento, finalmente decidira-se: - Victor, quero que organize cavaleiros para a escolta das meninas. Ao menos dois. Bem sei que o terceiro será o maldito fantasma de Rhaela. O homem me assusta... À sombra da muralha – prosseguiu. - Já há homens sob meu comando. Isso deverá bastar.
               Victor não via Dale havia anos. Sentiu-se feliz por tê-lo visto depois de tanto tempo.
               Depois de longos minutos de subida ao Ovo, chegaram finalmente à Crista do Galo. As meninas foram levadas aos seus aposentos, nos altos andares do castelo, uma por vez. Depois do fim da escolta, Victor dispensou os cavaleiros, com exceção de Kitton, que pediu, com sua voz colérica, para continuar a guardar a pequena Rhaela, como fazia, às vezes.
               Victor seguiu para seus aposentos, lavou-se e dormiu.
               Sonhou um sonho estranho. Nele, Dale cantava e harpejava na escura Floresta dos Pardais, na noite sem luar, mais escura e impiedosa que estivera, à sombra de uma pequena fogueira, enquanto lobos uivavam a sua volta, sons tristes e agudos. Victor estava lá, olhando. Via tudo com clareza, mas sentia como se não fosse ele mesmo. Ouvia a canção que o primo cantava.
               Os uivos dos lobos tornaram-se de melancólicos a insanos em poucos segundos. Uma súbita névoa encheu o ar de repente. Uma névoa, Victor bem sabia, que cheirava a frio. Um cheiro terrivelmente triste. Uma sombra sem formato irrompeu da escuridão como um terrível espectro negro, e atacou Dale, enrolando-se ao longo de seu corpo. Victor tentou mover-se para ajudar, mas não conseguia se mover. Não conseguia gritar. Não podia fazer nada, enquanto a criatura negra como o breu se contorcia e esmagava o pescoço do primo, que se esforçava para se livrar ou respirar. A sombra apenas largou o corpo do bardo quando seu rosto estava escuro e sem vida, e avançou, por cima das copas das árvores, rumo ao acampamento.                  
               Victor assistia a tudo como se estivesse em todos os lugares, vendo tudo o que acontecia. A sombra matou os últimos dois viajantes que estavam fora das tendas: os meninos que jogavam senet em frente ao acampamento, com golpes quase rápidos demais para serem vistos ou ouvidos. Seguiu em direção à entrada da cidade, em grande velocidade. Cruzou a muralha exterior por cima da guarita, penetrando na cidade, que dormia. Subiu o Ovo como se deslizasse através de seus declives e passou por cima da muralha do castelo. Na Crista do Galo, derrubou os guardas de uma das entradas dos fundos, e subiu as escadas, parecendo saber previamente para onde deveria se dirigir. Estava agora no corredor do quarto das meninas, tudo numa agonia desesperada. Dirigiu-se ao quarto do meio, o de Rhaela. Kitton tentou atacar à sombra com a espada, mas ela jogou-o facilmente contra a parede e passou através da porta.
               Então Victor ouviu um grito.
               Acordou-se assustado. O grito vinha tênue do andar de cima. O andar do quarto das meninas, ele pensou, temeroso. Teria seu sonho sido real? A sombra teria mesmo matado seu primo Dale e atacado a princesa Rhaela? Estava apenas estarrecido pelo pesadelo? Sem muito tempo para pensar, levantou-se aos pulos, procurando o cinto da espada. Os dedos róseos de aurora já se erguiam nos céus, pelo que via por sua janela. Vestiu a cota de malha em rápidos movimentos e saiu do quarto às pressas, correndo em direção ao fim do corredor, onde ficava a escada em espiral que levava ao andar superior. Subiu os degraus de três em três, com o coração perto de sair pela boca, pelo temor que tinha do que poderia encontrar mais acima. Mas ele era o Primeiro Protetor das três meninas.
               No dia em que ganhara o grau de Primeiro Protetor das herdeiras de Lorde Grantt, prometera, perante os deuses e o próprio lorde, protegê-las e guardá-las com a própria vida, em qualquer que fosse a circunstância. E era isso o que faria. Não teria medo.
               Mais um grito estridente ressoou, mais escandaloso que o primeiro. Rhaela? Perguntou-se, apertando o passo. Depois de percorrer os três corredores em zigue zague, finalmente estava no corredor perpendicular aos quartos delas. Antes de voltar-se para secção dos quartos, desembainhou a espada, num rápido movimento. Victor ouviu dos andares inferiores a movimentação dos guardas, provavelmente por terem ouvido o segundo - e mais forte - grito.
               Tomou fôlego e virou o corredor. Kitton estava jogado ao chão. O grande cavaleiro estava estendido, seu corpo parecia não mais ter vida. A porta do quarto de Rhaela estava entreaberta. Alianne vestia trajes de dormir, e lamentava-se debilmente da porta de seu quarto, dez metros à frente, tremendo tanto quanto chorava, com o semblante de alguém que acabara de despertar-se de um pesadelo e vira um terrível fantasma. Não, não pode ser real, Victor pensou.
               - No quarto de Rhaela... – disse Aliane. Apontava com uma mão trêmula para a porta entreaberta; sua voz saiu com dificuldade, devido aos soluços. – Tem de salvá-la. Tem de salvar Rhaela.  – A menina vacilou e desmaiou por sobre o tapete que cobria toda a parte central do corredor. Rhaela está sozinha no quarto. Precisa de você, uma voz ecoou dentro de sua cabeça. É o meu dever, pensou amargamente. Jurei protegê-la com a vida.
               Ouviu passos atrás de si. Os soldados estão aqui. Então entrou
num cego e destemido movimento, de espada erguida, no quarto da menina. A ainda fraca luz solar entrava pelas grandes janelas que se estendiam por todo o corredor, do lado oposto ao lado dos quartos. A luz cobria uma pequena do aposento, até a metade, onde a porta entreaberta não a vedava. Rhaela estava encolhida em uma parede de frente à porta da entrada, meio iluminada pela luz do sol. Em silêncio. Tão pequena. Também não chorava. Tremia. Tudo o que fazia era tremer.
               Victor abriu os lábios para perguntar o que havia acontecido, mas antes que as palavras se atrevessem a sair, a porta atrás de si fechou-se com um sonoro baque. Suas entranhas transformaram-se em água. Ficou imóvel por alguns segundos, no quarto quase completamente escuro, enquanto, lá fora, os guardas, que acabavam de chegar, às pressas, lutavam para abrir a porta que se fechara como que por vontade própria. O quarto era apenas iluminado pela pouca luz do amanhecer, que entrava por debaixo porta. 
               - Senhorita, acalme-se – ele tentou tranqüilizá-la. – Logo sairemos daqui. – Era no que gostaria de acreditar. Covarde, a voz de seu pai, há muito morto, ressoou dentro de sua cabeça. Não serve nem para matar porcos... nem para matar porcos. Sentiu o gosto da bílis na boca. Não, esse foi outro homem, tentou convencer-se.   
               Seus olhos, alguns segundos depois, haviam se acostumado parcialmente à escuridão. Então, conseguiu ver pusilanimemente o pequeno corpo encolhido contra a parede, que tremia com mais intensidade que antes. Victor aproximou-se e agachou, tocando-lhe o rosto que ardia de febre.
               - Acalme-se, minha senhora, está tudo bem. O que lhe aconteceu? – Não esperava resposta, mas talvez ela lhe mostrasse de alguma forma.
               A pequena e trêmula mão de Rhaela fez um lento movimento para o ar, com os grandes olhos azuis, agora negros devido à escuridão, esbugalhados de medo e um pequeno dedo indicador apontando para a escuridão atrás de Victor. Então ele viu a boca da menina movendo-se. Tentando falar.
               - Atrás d... de... você – Rhaela disse, com uma voz pesada, enquanto seus olhos enchiam-se de uma tremeluzente água.
               Foram as únicas palavras que Victor jamais ouvira sair da boca de Rhaela. Mas, infelizmente, eram as últimas que queria ouvir.
                Quando se virou, viu. No fim, era mesmo um covarde.